sábado, 10 de maio de 2014

O PARAISO DAS BORBOLETAS:


Setembro de eu não me lembro. Diz às línguas que nasceu Tonho Justino, na cidade de Murangipe. Sua casa ficava numa grota meio afastada da cidade. Ninguém visitava. Povoado pequeno de roça, cabo de enxada, sapato de barro. Menino estreito, minguado, prego fino de tábua seca, arruda dava de tão magro. Mas de cabeça grande, parecia uma cabaça. Cresceu meio a solidão. Solidão de pedra, de casca de cascalho, solidão de idas e vindas sem ninguém pela vida adentro, pela vida a fora, pela vida do meio, sem ninguém. Pobre demais. Nunca não beijou, nunca não namorou e nunca não se deitou com mulher de nada. Assim Tonho cresceu crescendo. Continuando fino e sozinho tal como quase palito. Mas a cabeça, cabaça. Alimentava sonhos como de normal de todo menino. Queria ser borboleta. Borboleta de asas leves e lisas e de cor azul e amarela. Meia volta acompanhava o revolutear das mariposas, na plantação de milho da sua mãe Nhazinha. Uns sete pés, nada mais que isso. Essa sempre lhe deu palpite, sempre lhe deu caso, sempre lhe deu prosa. Já estava certa de que o menino era um presente de Deus_ ô Menino bobo sô. Indagava feliz pela casa. Rezava muito, lia tanto a bíblia que esta parecia um trapo velho de tanto uso. Não conheceu o pai. Esse, quando Tonho nasceu foi pra nunca mais se ver. Dizem que não agüentava mais tanta carraspana da vida, bebia de mais da conta. No pé do pileque, dava tanta xingação, tanto mexerico sem nenhum custo. Ninguém aguentava tanta chatice. Levou duas mudas de roupa e seu par de chinelos. Deixou a família pra traz e seu par de botas de desuso no paiol, que nem cavalo calçava.
Nunca tiveram uma comemoração de Natal. Todo ano a cidade se preparava para a festança. Crepes, fitas e fitilhos, bolas, luzes e lamparinas. Depois da ceia se ajuntavam na praça para os abraços de muitos juntos. Tonho via tudo àquilo de longe, mas não sabia o que era. Não participava porque não lhe tinha o que comer, nem o que vestir. Nhazinha o prendia na grota ou em casa, para não fazer misturança com gente ruim. O abraçava e lhe dizia. _ Deixa estar Tonho. Deus ainda vai nos dar um natal. Lembrava-se das borboletas. Ficava quase um quarto de hora vendo a andança e a confusão quieta. Ninguém quase não dava bola pro menino, era quase não visto, despercebido. Sua mãe não entendia o porquê o cujo gostava tanto das mariposas. _ O menino bobo sô. Tonho acompanhava e corria de braços abertos encurvando o corpo e a cabeça como trem no trilho torto. Ora parecia que caia, mas já ajeitava o corpo fino de reto para não tombar de vez de jeito. Desengonçado e estapafúrdio, estrambótico, esquisito mesmo pra quem via. Corria e corria como se já ia levantar vôo junto. Queria ser borboleta. _ Ô menino Bobo Sô. Não cansava de dizer mãe. Surrada de tanto cansaço. Sentava-se na cadeira de balanço meia perna bamba quase que caindo, junto à casinha de barro com teto de sapé. Combinava com sua mobilha. Uma lamparina, duas panelas com três feijões dentro, quatro canecas e uns cinco talheres. Ia, voltava, ia voltava, ia voltava na cadeira de balanço manqueta.
Véspera de natal Nhazinha triste porque mais um ano depois de outros que o mesmo lhe oferece. Nada de nadica. Nenhuma festa, nenhuma comemoração, mas reza.
_Senta Tonho, vamo cá rezar com deus, este é o dia dele!
_Mas mainha vou atrás das borboletas!
_ Deixa de prosa menino, depois da reza ocê vai. - O menino Bobo sô...
_ Mais maínha Deus espera pra despois as borboletas não...
Sentou-se junto à mãe para rezar. A bíblia que tinha de tão velha lhe faltava às palavras:
"Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem ( pausa longa, faltava às letras) amém! Terminava nhazinha sem graça.
Tonho tomou rumo e prumo, e já foi estrada longe. Adentrou pasto adentro atrás das mariposas. Caminhou por tanto tempo que o dia se apagou completo. O dia agora era a luz das estrelas, a lamparina a lua, sua cama o mato seco. Sem pé de milho, sem borboleta azul e amarela. O som agora é assovio do vento, de uma boca imensa que não se vê os dentes. Agora Tonho era uma imensidão de medo. Não sabia mais voltar de volta.
Anoiteceu na véspera de Natal, Nhazinha já todo desespero. _ Cadê meu menino! Agora todo choro, olha a imensidão da mata onde o céu e a terra se afunilam e pede: O Deus! Na seca e na fome nunca deixei de lhe lembrar, corri correndo pros teus braços, nunca murmurei o que farta de comer. Me tire tudo o resto que ainda tenho, mas me traz Tonho de volta...
Um clarão apareceu no terreiro. Era uma borboleta azul e amarela cintilante, como lamparinas na noite. Voou em sua volta, pousou em seus cabelos mirrados, fez bagunça com sua cabeça. E seguiu mato dentro. Nhazinha atrás foi indo. Percorreu quase vinte e muitos tempos de distância. A borboleta azul e amarela cintilante como que se dissesse, no passo de como ela entendesse:
"Não se desvie para os seus caminhos o teu coração, e não andes perdido nas suas veredas". (Provérbios 7:25).
Pouco depois Nhazinha encontra Tonho se adeitado por debaixo de uma figueira. Abraços e apertos de dois juntos.
_ Obrigado Deus! Disse mirando a borboleta. Tonho ficou feliz de vê-la já teimou em segui-la com sua cabeça cabaça e seu jeito de quase caindo. Essa não se foi de vez foi seguida junto com os dois até a porta de casa. Ali brincou com sua cabeça e cabaça e num piscar de olhos sumiu diante do escuro. De fora pra dentro já entrando nas pressas percebeu que sua casinha estava transformada. Uma mesa farta, um brilho novo e uma nova Bíblia. Em cima desta, pairava uma borboleta azul e amarela de asas levinhas e fininhas. Tonho abriu o livro e esta pousou levemente no gomo do escrito:
"Bradem de júbilo e se alegrem os que desejam a minha justificação, e digam a minha justificação, e digam continuamente: Seja engrandecido o Senhor, que se deleita na prosperidade do seu servo". Salmos 35:27 
Não se sabe ao certo o que aconteceu depois. A casa atualmente está vazia. Dizem que mais nunca ninguém ouviu falar de Tonho e Nhazinha. Mas até hoje a grota onde fica sua antiga casa tem outro nome: "O recanto das Borboletas". Atualmente visitado por pessoas de todas as partes do mundo, por ajuntar a maior número de espécies já vista...

sexta-feira, 9 de maio de 2014

RESENHA

DO LIVRO: ANTROPOLOGIA DA CRIANÇA


Autor da Resenha: Rômulo

“Antropologia da criança” é um livro da coleção passo a passo (Editora Zahar) da Doutora em Antropologia pela USP, Clarice Cohn. O livro possui 58 páginas divididas em 13 tópicos, nos sete primeiros a autora fala sobre as contribuições da antropologia nos estudos da criança, desde os estudos pioneiros até os novos, onde promove uma reflexão sobre a criança, à infância, sua atuação, produção de cultura, educação e aprendizagem. A partir do oitavo tópico discorre sobre a aplicação da pesquisa na interdisciplinaridade, seus métodos, técnicas e conclui sobre “as crianças daqui e de lá”. Os estudos neste livro fazem um mapeamento das varias abordagens antropológicas, além de discussões sobre os limites e possibilidades de uma “antropologia da criança” e no final recomenda leituras para aqueles que desejam ampliar conhecimentos.
O livro se inicia com questionamentos acerca de “O que é a criança¿ O que é ser criança? Como vivem e pensam as crianças? O que significa infância e quando ela termina?”, o interesse da autora é mostrar que apesar de autores famosos descreverem textos saudosos da infância, há grande variação de ideias e que apenas dividir o mundo adulto e infantil não contempla os estudos da antropologia, para ela o antropólogo deve ser capaz de observar o mundo com os olhos de uma criança para tentar entender seu processo de formação através do contexto sociocultural em que estão inseridas tornando-as “objeto legitimo de estudo”.
Na primeira parte Cohn descreve os estudos pioneiros em antropologia citando como um dos mais importantes a escola culturalista norte americana, fundada por Franz Boas. Essa escola delimitou definindo a cultura transmitida de geração para geração como particular e o que é construído sem interferência (inato no ser) universal formando a dicotomia inato x adquirido. O estudo mais famoso segundo a autora é a da psicóloga e antropóloga Margaret Mead que em pesquisa na ilha norte americana de Samoa concluiu que os conflitos e rebeldia juvenis americanas são dados culturais e não podiam ser explicados por uma condição biológica, pois o conceito de adolescência deveria ser definido a partir do contexto em que a criança está inserida. Apesar das duras criticas recebidas Mead continuou os estudos e coletas de dados em Manu e Bali deixando grandes contribuições para a antropologia como visibilidade aos estudos das crianças e sugestões de métodos, temas, coletas e analise de dados.
Pensamentos contrários surgiram com a escola estrutural - funcionalista, ela negou o psicologismo dos estudos de Margaret Mead com a tese de que o importante no processo é a “socialização dos indivíduos”, ou seja, o lugar ocupado pela criança no sistema é definido pelo próprio sistema. Segundo Cohan todos as correntes de estudo contribuíram no avanço dos estudos, porém ainda faltava dar um passo adiante e abordar os estudos das crianças a partir de si mesmas.
Em outra parte da obra a autora fala dessa nova abordagem antropológica ocorrida na década de 1960, onde antropólogos reavaliaram conceitos e passaram a estudar as crianças de maneira inovadora. Esse inovação deixou de valorizar crenças, valores e costumes em si como pontos importantes  e focaram na forma em que eles eram acionados pelo ser dentro da sociedade. O foco nessa funcionalidade transformaram os seres em atores sociais e a sociedade passou a ser encarada como um sistema simbólico dentro de um contexto, no qual o individuo deixou de ser apenas um receptáculo de informação, para se tornar um “ator social” em um papel que criam enquanto vivem.
A partir destas inovações a obra de Cohn traça aspectos importantes conceituando infância como forma particular, estabelecida pela sociedade e, pode ou não existir em outra sociedade. Essa pré - definição de quando começa e termina a infância é contraditória nos próprios estatutos de uma dada sociedade como no caso do aborto em que uns são contra e outros a favor, seja por questões religiosas, biológica etc.
Então passam a encarar a criança como atuante no meio em que vive. Essa atuação interage com os adultos, outras crianças e o mundo que a rodeia. Para a autora as condições que cercam os pequenos não fazem deles nem vitimas e nem algozes, são apenas produtos da construção da identidade social. A antropologia revoluciona ao pesquisar o sistema simbólico usado por eles na construção de sentido e significado. Essa pesquisa tomou cuidado para não confundir o pensamento delas com os pensamentos compartilhados pelos adultos em sua formação.
A obra de Cohn também faz uma reflexão sobre a educação e aprendizagem dizendo que se deve começar do começo, que o ensino acontece de maneira “formal” e “informal” e que algumas situações essa educação deve ser formalizada, porém como há no mundo tantas formas estabelecidas é necessário que esse aprendizado seja interligado, assim como a antropologia, a psicanalise e a psicologia que devem dialogar para entender melhor a formação desse novo ser. O livro convida também as escolas que passem a olhar as crianças como atores sociais que interagem, modificam e produzem no meio em que vivem. Para isso cada instituição deve buscar nos modelos de pesquisa, aquela que se enquadra à sua realidade utilizando – se de recursos como coleta de desenhos, produção de textos e relatos áudio visuais, pois as crianças de lá são as mesmas daqui, o que muda são os contextos.

Considerações finais:


O Livro “Antropologia da criança” é voltado para o público em geral e não apenas a especialistas, ele aborda e questiona as definições pré-estabelecidas do que é ser criança, quando começa e quando termina a infância. Essa abordagem busca trazer em debate como se dá a relação da formação do novo ser e mostra que os estudos antropológicos podem e devem dialogar com outras ciências de maneira a contribuir na formação das crianças. Esse debate e dialogo se faz presente na obra de maneira clara e mostra ao interessado em geral os avanços e o quanto ainda falta avançar no misterioso mundo infantil.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

HOMENAGEM AOS AMIGOS


AMIGOS SÃO ANJOS ENVIADOS PELO SENHOR PARA AJUDAR-NOS EM NOSSA CAMINHADA...
                                         
                                                                          
                                                                                                                                              Rômulo